Água cara ou é água da barata?

No auge de toda insegurança gerada pela crise hídrica real, a de 2014, eis que o Governo de São Paulo veio com aquele papo “me engana que eu gosto” para acessar a água do volume morto do Sistema Cantareira. Necessidade obrigatória por lei, é o limite, deve-se garantir o abastecimento da população da capital onde muitas pessoas enxergam nisso uma atitude empreendedora. Realmente, isso é que é amor para além da conta!

Traduzindo para a linguagem dos demoautocratas que vivem fora da bolha do sistema de regulação e controle do abastecimento de águas, o Governo de São Paulo definiu que as pessoas passariam a beber água de fontes que tempos atrás não serviríamos nem aos porcos, sob pena de ser processado criminalmente pelo próprio Estado.

As águas superficiais destinadas ao abastecimento das comunidades humanas seguiram até o momento uma lógica na qual à qualidade do recurso hídrico é definida uma classe (da melhor para a pior: 1, 2, 3, 4 e 5) e que por sua vez determina a categoria de uso dessas águas (abastecimento, irrigação, dessedentação de animais, navegação, recreação, etc).

No caso de águas para abastecimento (potável) suas fontes devem apresentar padrões de qualidade que a enquadrem nas classes 1 ou 2. Para se ter uma ideia da amplitude do que seriam essas classes, água classe 1 corresponderia a uma nascente na descida da serra do mar e uma classe 5 seriam as águas do Rio Tietê que atravessam São Paulo.

A água do volume morto é morta porque é o resultado do acúmulo de décadas de resíduo que se precipita no fundo do leito do rio, é o lodo dos rios que foram barrados. Numa analogia com o corpo humano estamos coletando água no final sólido do intestino ao invés de coletar no coração ou dedos desse sistema circulatório.

Algumas semanas atrás em Salto, cidade vizinha de Itu, uma imensa quantidade de corimbatás que faziam a piracema (período de desova onde os peixes sobem os rios até a nascente) toneladas e mais toneladas apareceram boiando no Córrego do Ajudante, um afluente do Rio Tietê na cidade. O rio Tietê estava preto e denso como petróleo e ficou muito fácil de relacionar um fato a uma sequência.

Os peixes que vinham de partes mais baixas e mais limpas do Tietê para fazer a desova se depararam com a mancha de poluição e desviaram para o Córrego do Ajudante, porém esse pequeno afluente não deu conta de abrigar tantos peixes que acabaram morrendo por asfixia (falta de oxigênio na água). É como se os peixes morressem afogados, é mole que fizemos isso? Vejam as fotos aqui no Fotos Públicas.

Essa mancha nada mais é do que o volume morto das 3 PCHs que se localizam entre São Paulo e Salto (Rasgão, Pirapora e Porto Góes). Quando a chuva voltou a cair as comportas das barragens foram abertas para controlar a vazão e esse procedimento movimenta o volume de água depositado nas lagoas dos reservatórios. É o volume morto em movimento. Água podre e parada que se desloca rio abaixo.

Essa é a cultura de água que estamos criando, uma cultura de água morta, parada e fétida. Estamos consumindo água boa para abastecer baratas e para humanos inventamos pózinhos mágicos que por alguns trocados transformam água podre em água cristalina – a aparência é muito mais importante do que a essência.

Há um caminho, vários com certeza que não pensam assim e podem focar suas energias nos processos de plantio de águas por aí, desvendando seus fluxos e mensagens, acessando conversas francas no fazer das águas vivas. “A água é tal qual a terra por onde ela atravessa”, já se dizia na grécia antiga e foi mote inicial da perdida Jornada pelo Tietê.

Em que água e em que terra você vibra?

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